Da luta pelo fim da escravidão à fundação da Associação Pernambucana de Escoteiros em 1917: a trajetória titânica do Professor Pernambucano que foi testemunha do nascimento do Brasil moderno.
Por Chefe Gilmar Gonçalves da Silva
15 de junho de 2026
Compreender a fundação da Associação Pernambucana de Escoteiros em julho de 1917 exige enxergar muito além das técnicas de campo ou das marchas ao ar livre; exige reconhecer a magnitude histórica dos homens que alinharam suas trajetórias à certidão de nascimento do movimento no Recife. Quando o Dr. Olinto Victor assumiu o posto de primeiro Presidente Efetivo da instituição, ele não trazia consigo o entusiasmo de um passatempo juvenil, mas o peso e a têmpera de quem havia dedicado a juventude ao calor das campanhas abolicionistas que transformaram o Império. Existe uma grandeza titânica nesse paralelo cronológico e moral: a mesma mão que outrora empunhou canetas e manifestos em prol da liberdade e da emancipação humana antes de 1888 foi a mão que, décadas mais tarde, assinou e chancelou os primeiros estatutos da A.P.E. no Cartório do 1º Ofício. Para Olinto Victor, o método de Baden-Powell era a evolução natural de sua própria missão civilizatória: após lutar para libertar os corpos, sua nova trincheira era moldar o caráter, o civismo e a integridade da juventude que lideraria o futuro da nação.

“A reconstrução facial que ilustra este artigo é fruto de um feliz e surpreendente achado histórico. Ao entrarmos em contato com a gestão da Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Olinto Victor em busca de dados biográficos sobre o nosso primeiro presidente, fomos surpreendidos com a revelação de que a instituição preservava, no coração da sua diretoria, um precioso quadro de seu patrono desenhado a lápis. A imagem foi gentilmente cedida ao Instituto Sempre Alerta (ISA) pelo Gestor Diogo Barros, permitindo-nos resgatar com fidelidade os traços e a altivez do Professor Pernambucano.”
CAPÍTULO 1: O POLÍMATA DA VÁRZEA E A ALIANÇA CÍVICA DE 1917
A construção da memória histórica de uma nação ou de um estado frequentemente repousa sobre a cristalização de nomes em fachadas de prédios públicos, instituições de ensino e logradouros urbanos. Para a esmagadora maioria dos cidadãos que transitam diariamente pelas ruas do tradicional e arborizado bairro da Várzea, na zona oeste da cidade do Recife, o nome “Olinto Victor” evoca, primordialmente, a prestigiada Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) que atua como um dos pilares da instrução pública daquela comunidade. No entanto, por trás da herança nominal que batiza a instituição de ensino, repousa a biografia de um dos intelectuais mais versáteis, obstinados e multifacetados da história de Pernambuco na transição do século XIX para o século XX. Dr. Olinto Victor não foi apenas um observador dos processos de transformação social de sua época; ele foi um agente transformador que transitou, com o mesmo brilhantismo e vigor, pelas arenas da advocacia, do jornalismo de combate, da alta administração pedagógica e do civismo prático.
Compreender a magnitude de sua trajetória exige do historiador e do biógrafo um esforço de recuo cronológico até o ambiente efervescente de julho de 1917, na capital pernambucana. O Brasil e o mundo viviam sob o signo das incertezas provocadas pela Primeira Guerra Mundial, um cenário que forçava as elites intelectuais e os educadores a repensarem profundamente os métodos de formação do caráter, da saúde física e do sentimento de responsabilidade patriótica da juventude. Foi exatamente nesse contexto de busca por novas ferramentas pedagógicas que ultrapassassem os limites tradicionais das salas de aula que a cidade do Recife tornou-se o berço de um pioneirismo nacional. No dia 9 de julho de 1917, uma assembleia composta por proeminentes figuras da sociedade civil, do ambiente jurídico e das forças armadas reuniu-se para aprovar e assinar os estatutos sociais da Associação Pernambucana de Escoteiros (A.P.E.). Esse ato, registrado formalmente no Livro A-01, sob o nº 119 do Cartório do 1º Ofício de Registro de Títulos e Documentos e publicado no Diário Oficial do Estado em 21 de julho de 1917, converteu a A.P.E. na organização escoteira mais antiga do Brasil com registro civil de pessoa jurídica e publicidade estatal ininterruptamente preservados.
A análise minuciosa da primeira ata e da composição diretiva daquela associação revela uma engrenagem política e institucional perfeitamente arquitetada. Para garantir o respaldo político e a blindagem institucional da nascente organização em face dos poderes públicos, a assembleia geral designou para os cargos de Presidentes de Honra o General Joaquim Ignácio Baptista Cardoso e o jovem e promissor jurista Dr. Antônio Vicente de Andrade Bezerra (que anos mais tarde viria a se tornar Diretor da Faculdade de Direito do Recife e Governador interino do Estado). Contudo, a engrenagem executiva, o comando real das ações e a responsabilidade prática de converter as diretrizes teóricas de Robert Baden-Powell em uma realidade palpável para os jovens do estado não foram confiados a generais ou a secretários de governo, mas sim ao Dr. Olinto Victor, eleito por escrutínio secreto como o primeiro Presidente Effectivo da Associação Pernambucana de Escoteiros.
A escolha de Olinto Victor para a presidência executiva da A.P.E. representou a culminância natural de uma vida inteira dedicada à causa da instrução e da elevação moral da sociedade. Aos 55 anos de idade, o veterano educador trazia para o movimento escoteiro não o formalismo burocrático de um burocrata, mas a autoridade de quem havia passado as últimas décadas comandando a formação de professores na Escola Normal do Estado. Conforme determinavam os artigos 1º e 2º dos recém-aprovados estatutos, a Associação tinha por fim promover a organização estadual de escoteiros, encorajar a criação de agrupamentos locais, publicar livros, artigos e guias de conduta, além de organizar conferências tanto na capital quanto no interior do estado. Sob o comando direto de Olinto Victor, o escotismo em Pernambuco nasceu indissociável da ciência pedagógica. Este artigo de 25.000 caracteres propõe-se a resgatar os eixos fundamentais dessa biografia, demonstrando como o jovem que combateu na trincheira abolicionista nos anos finais do Império foi o mesmo homem que, na maturidade republicana, moldou a instrução pública e fincou as bases do escotismo nacional.
CAPÍTULO 2: A TRINCHEIRA ABOLICIONISTA E A CAMPANHA DE 1884
Para se compreender a formação do caráter público e o rigor moral que o Dr. Olinto Victor aplicaria em suas futuras funções administrativas e cívicas, é imperativo analisar o ambiente de sua juventude e os primeiros embates políticos em que se envolveu. Embora tenha construído sua vida, sua reputação e seu legado em solo pernambucano, Olinto Victor nasceu na Província da Paraíba, no dia 3 de julho de 1862. Filho de Ismael Victor Pereira e de Maria Dorotéia da Hora Victor, ele mudou-se para Pernambuco ainda durante a infância, integrando-se rapidamente à dinâmica social e cultural da capital pernambucana. Ao ingressar na juventude na virada da década de 1870 para os anos 1880, o jovem estudante deparou-se com um Recife que funcionava como a “Atenas do Norte”, um território marcado por profundas fraturas políticas, debates filosóficos intensos e, acima de tudo, pela efervescência incontrolável da campanha abolicionista.
O ano de 1884 representou o ápice absoluto da mobilização popular contra a instituição do cativeiro em Pernambuco. Inspirados pela histórica libertação da Província do Ceará em março daquele mesmo ano, os grupos abolicionistas do Recife — compostos por estudantes de direito, jornalistas, caixeiros do comércio e artistas — abandonaram a postura de mera discussão parlamentar para adotarem estratégias agressivas de desobediência civil, acoitamento de escravos fugidos e judicialização em massa dos processos de liberdade. Diferentemente de outras províncias onde o abolicionismo mantinha-se restrito às elites liberais, em Pernambuco o movimento assumiu um caráter marcadamente popular e, muitas vezes, diretamente vinculado à propaganda republicana clandestina comandada por jovens positivistas e democratas intransigentes. Foi nesse caldeirão político que o jovem Olinto Victor, então com 22 anos de idade e estudante da Faculdade de Direito, encontrou sua primeira grande trincheira de atuação pública.
Olinto Victor envolveu-se diretamente na administração e na militância de uma das agremiações mais singulares e operantes do período: a Associação Mista Redentora dos Cativos e Protetora da Educação dos Ingênuos. A relevância histórica dessa sociedade residia na sua dupla linha de atuação estratégica. Enquanto a ala “Redentora dos Cativos” concentrava seus esforços na arrecadação financeira de pecúlios para a compra de alforrias e no suporte jurídico a escravizados que buscavam a liberdade nos tribunais, a ala dedicada à “Proteção da Educação dos Ingênuos” focava em um dos problemas sociais mais dramáticos gerados pela transição gradual da legislação imperial. A Lei do Ventre Livre, promulgada em 28 de setembro de 1871, determinava que os filhos nascidos de mães escravizadas a partir daquela data seriam considerados livres (os chamados “ingênuos”). Na prática cotidiana das fazendas e engenhos, contudo, essas crianças permaneciam sob a tutela e exploração brutal dos ex-senhores de suas mães até atingirem a maioridade, vivendo em condições idênticas às do cativeiro e privadas de qualquer acesso à instrução básica.
A associação em que Olinto Victor militava combatia essa realidade de frente, resgatando e alfabetizando essas crianças, preparando-as para o advento inevitável do trabalho livre. O protagonismo e o prestígio de Olinto Victor dentro dessa rede de desobediência civil e assistência social ficaram solidamente registrados em setembro de 1884. O abolicionismo pernambucano vivia um momento de profunda inovação com a ascensão das mulheres na arena política, consolidada na fundação da Sociedade Ave Libertas, a primeira associação emancipadora unicamente feminina da província. Na Solenidade de Instalação e posse da diretoria da Ave Libertas, realizada sob forte vigilância policial, a comissão organizadora feminina convocou apenas sete discursantes do sexo masculino para subirem à tribuna e saudarem a nova força libertadora. Entre nomes consagrados do Centro Republicano e das caixas emancipadoras acadêmicas, o jovem Olinto Victor subiu ao palco como o representante oficial da Associação Mista Redentora dos Cativos e Protetora dos Ingênuos. Seu discurso na tribuna, proferido ao lado de figuras como Cyridião Durval e Anísio de Abreu, consolidou sua posição não apenas como um brilhante orador, mas como um homem profundamente comprometido com a dignidade humana e a estruturação da cidadania.
Essa experiência juvenil na vanguarda abolicionista deixou marcas indeléveis em sua visão de mundo: Olinto Victor compreendeu precocemente que a verdadeira liberdade de um povo era indissociável da educação e da formação moral de sua juventude. A transição para o trabalho livre exigia uma nova pedagogia, uma lição que ele levaria consigo para as próximas décadas de sua atuação profissional.
CAPÍTULO 3: A CASA DE TOBIAS E O HISTÓRICO EMBATE CONTRA CLÓVIS BEVILÁQUA
Com a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889 e o consequente desmonte das estruturas imperiais, o ambiente intelectual e jurídico do Recife passou por uma reorganização profunda. Para a geração de bacharéis que havia se formado sob o signo das transformações efervescentes da década de 1880, o novo regime representava a oportunidade de ocupar os espaços institucionais e aplicar as modernas correntes científicas, filosóficas e sociológicas no desenho da nova sociedade. O Dr. Olinto Victor, já consolidado como bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela tradicional Faculdade de Direito do Recife, compreendia que a consolidação da cidadania republicana dependia do fortalecimento das instituições de ensino superior e da renovação de seus quadros docentes. A outrora Academia de Ciências Jurídicas, agora rebatizada e sob a forte influência teórica da chamada “Escola do Recife” — que havia sido capitaneada por Tobias Barreto e Sílvio Romero —, tornou-se a arena ideal para que os grandes talentos da província movessem suas peças intelectuais.
Foi nesse cenário de disputa pela hegemonia do pensamento filosófico e jurídico que o Dr. Olinto Victor inscreveu seu nome em um dos episódios mais célebres, concorridos e dramáticos da história acadêmica do Brasil. Abriu-se o concurso público de provas e títulos para o provimento da prestigiosa e disputada cadeira de Filosofia da Faculdade de Direito do Recife. À época, os concursos para as cátedras das faculdades de direito do Império e do início da República não eram meras formalidades burocráticas ou avaliações de currículos em gabinetes fechados; tratavam-se de verdadeiros espetáculos públicos, com defesas de teses de altíssima densidade, arguições orais implacáveis diante de congregações severas e galerias superlotadas por estudantes entusiasmados e pela imprensa local. Inscrever-se para a cadeira de Filosofia exigia não apenas uma coragem intelectual à prova de bala, mas o domínio absoluto do ecletismo, do positivismo comtiano, do evolucionismo spenceriano e das correntes do monismo alemão que disputavam a mente da juventude acadêmica.
O Dr. Olinto Victor apresentou-se ao certame ostentando uma sólida reputação construída no magistério secundário e nas arenas do debate abolicionista. No entanto, a lista de seus concorrentes diretos transformou aquele concurso em uma batalha de titãs intelectuais. Olinto Victor enfrentou na banca examinadora e na disputa direta duas das mentes mais brilhantes, complexas e rutilantes da inteligência jurídica brasileira: o Dr. Virgínio Marques Carneiro e ninguém menos que o Dr. Clóvis Beviláqua, o brilhante jurista cearense que já despontava como um dos maiores teóricos do direito civil do continente. Durante dias seguidos, os candidatos submeteram-se aos rigores das provas escritas, da leitura de teses originais inéditas e da prova didática de erudição filosófica sob a mirada atenta dos lentes catedráticos da instituição. Olinto Victor demonstrou um vigor argumentativo extraordinário, uma capacidade de síntese invulgar e uma oratória precisa que arrancou aplausos das galerias estudantis.
Ao término das apurações e das notas conferidas pela severa banca examinadora da Faculdade de Direito, o Dr. Clóvis Beviláqua sagrou-se o grande vencedor do certame, assumindo a lendária cátedra de Filosofia. Contudo, em uma demonstração inequívoca de sua estatura intelectual e erudição, o Dr. Olinto Victor conquistou o segundo lugar naquele concurso histórico, classificando-se à frente de outros grandes nomes da província. Longe de representar uma derrota, o segundo lugar em concorrência direta contra Clóvis Beviláqua converteu-se em um verdadeiro atestado de consagração pública e autoridade intelectual para Olinto Victor em todo o Norte e Nordeste do Brasil. O resultado demonstrou à elite política e acadêmica do estado que aquele jovem advogado e professor possuía uma inteligência refinada e um estofo conceitual que o credenciavam para assumir os postos mais altos e complexos da administração da instrução pública de Pernambuco. Sua carreira tomaria, a partir dali, o rumo definitivo da gestão educacional de elite.
CAPÍTULO 4: O ARQUITETO DA INSTRUÇÃO E AS DUAS DÉCADAS DE DIREÇÃO DA ESCOLA NORMAL
Consagrado pelo reconhecimento de sua erudição no concurso da Faculdade de Direito do Recife, o Dr. Olinto Victor passou a ser disputado pelas principais instituições de ensino da capital pernambucana, consolidando-se como um verdadeiro polímata do magistério. A característica mais marcante de sua atuação docente residia em uma versatilidade pedagógica assustadora, uma capacidade quase sobre-humana de transitar por campos do conhecimento que, na modernidade, parecem completamente inconciliáveis. Olinto Victor lecionava com o mesmo rigor científico, clareza didática e encanto oratório matérias de matriz humanística, como Português, História e Geografia, e disciplinas de exatas e técnicas, como Trigonometria, Desenho e Pedagogia Prática. Essa polivalência fez dele a figura central de duas das instituições mais importantes do estado: o tradicional Liceu de Artes e Ofícios — voltado à instrução técnica e profissional das classes trabalhadoras — e a prestigiosa Escola Normal de Pernambuco.
A Escola Normal não era uma instituição de ensino comum; tratava-se do verdadeiro coração estratégico do projeto republicano de modernização social do estado de Pernambuco. Era ali, em suas salas de aula e laboratórios, que se formavam as futuras gerações de professores primários e secundários responsáveis por alfabetizar a população, erradicar o analfabetismo herdado do Império e incutir os valores cívicos e científicos da modernidade nas crianças do interior e da capital. Assumir a liderança de tal instituição exigia uma conduta moral ilibada, uma capacidade de organização férrea e uma visão de futuro que alinhasse a teoria pedagógica às necessidades práticas da administração pública. Reconhecendo essas qualidades no Dr. Olinto Victor, o Governo do Estado o nomeou para o cargo máximo de Diretor da Escola Normal de Pernambuco, função que ele assumiu oficialmente no dia 3 de outubro de 1896.
O início de sua gestão marcou a inauguração de uma era de ouro e de profunda reestruturação na formação docente do estado. Olinto Victor não se limitou ao papel burocrático de assinar papéis e despachar portarias em seu gabinete de diretor; ele fez questão de acumular a função administrativa com a docência direta, assumindo a titularidade da importantíssima cadeira de Pedagogia da Escola Normal. Na condução dessa disciplina, Olinto Victor converteu-se no mentor de milhares de jovens educadores. Os relatos históricos e os relatórios da instrução pública do período são unânimes em apontar que ele cumpria sua tarefa com um zelo místico, uma assiduidade britânica e uma dedicação paternal, sendo reconhecido como um mestre de esforços extraordinários que conseguia obter um elevado aproveitamento técnico e moral de seus alunos. Sob sua batuta, a Escola Normal modernizou seus currículos, introduziu métodos modernos de psicologia educacional e expandiu sua influência para além das fronteiras recifenses.
A confiança depositada pelo poder público e pela sociedade civil em sua retidão e capacidade de liderança foi tão avassaladora que o Dr. Olinto Victor permaneceu ininterruptamente no cargo de Diretor da Escola Normal por exatas duas décadas, encerrando seu ciclo administrativo apenas em 17 de janeiro de 1916. Foram vinte anos moldando a espinha dorsal da educação pernambucana. Paralelamente a esse império pedagógico, seu prestígio fez com que ele fosse sistematicamente convocado para presidir bancas examinadoras de concursos públicos de alta complexidade e fundar cursos inovadores de iniciação ao direito. Em 1912, devido à sua fama de administrador incorruptível e rigoroso com as finanças, foi nomeado membro do Conselho Fiscal e Administrativo do Montepio dos Funcionários Públicos do Estado, cargo de extrema responsabilidade financeira para o qual foi reconduzido por mais duas vezes consecutivas. Ao deixar a direção da Escola Normal em 1916, Olinto Victor era uma das figuras públicas mais respeitadas de Pernambuco, pronto para aplicar toda essa imensa bagagem cívica no nascimento do escotismo.
CAPÍTULO 5: O ENCONTRO COM BADEN-POWELL — A PRESIDÊNCIA DA A.P.E. E O LEGADO NA VÁRZEA
Ao encerrar o seu vitorioso ciclo de duas décadas na direção da Escola Normal de Pernambuco em janeiro de 1916, o Dr. Olinto Victor não se retirou para os aposentos cômodos da inatividade. Pelo contrário; sua mente irrequieta e seu profundo senso de dever cívico o impulsionaram a buscar novas respostas para os desafios que a juventude da época enfrentava. O ano de 1917 trouxe consigo uma onda de renovação pedagógica em todo o mundo. O método de educação integral ao ar livre idealizado por Robert Baden-Powell na Inglaterra — o Escotismo (Boy Scouts) — começava a ganhar corações e mentes no Brasil como uma ferramenta extraordinária para o desenvolvimento da autonomia, da resiliência, da saúde física e do patriotismo prático. Para um educador com a sensibilidade de Olinto Victor, o escotismo não era um mero passatempo juvenil ou uma atividade recreativa; era uma extensão natural da pedagogia moderna.
A experiência acumulada por Olinto Victor em sua juventude na Associação Mista Redentora dos Cativos e Protetora dos Ingênuos nos anos 1884 havia lhe ensinado uma lição indelével: a verdadeira emancipação de um indivíduo e a construção de uma pátria livre dependem da formação integral de suas crianças. Se na juventude ele havia lutado para garantir a instrução e a dignidade dos filhos libertos das mães escravizadas, agora, na maturidade de 1917, ele enxergava no escotismo o caminho para moldar os cidadãos do amanhã. Assim, no dia 9 de julho de 1917, no Recife, o Dr. Olinto Victor uniu-se a uma ilustre comissão de intelectuais, juristas e militares para fundar a Associação Pernambucana de Escoteiros (A.P.E.). A relevância desse ato ficou eternizada nos registros do Cartório do 1º Ofício de Registro de Títulos e Documentos da capital, sob o número de ordem 4.240 e registrado no Livro A-01, sob o nº 119, com publicação oficializada no Diário Oficial do Estado no dia 21 de julho de 1917. Com isso, a A.P.E. nascia como a organização escoteira mais antiga do Brasil com documentação notarial e publicidade estatal ininterruptamente preservadas.
A ata de fundação revela a engenharia institucional e o profundo respeito que a sociedade nutria por Olinto Victor. Para garantir a segurança jurídica e o peso político da nova associação, foram convidados para os postos honorários de Presidentes de Honra o General Joaquim Ignácio Baptista Cardoso e o jovem e brilhante jurista Dr. Antônio Vicente de Andrade Bezerra (então com 28 anos, formado pela Faculdade de Direito do Recife em 1908, futuro relator da pioneira lei de acidentes do trabalho de 1918 e Governador interino do Estado em 1935). Mas para o cargo mais complexo, aquele que exigia o comando das ações diárias e a aplicação prática do método pedagógico de Baden-Powell, a assembleia geral elegeu por escrutínio secreto o Dr. Olinto Victor como o seu primeiro Presidente Effectivo (Executivo).
Conforme determinavam os recém-aprovados estatutos, cabia exclusivamente à diretoria comandada por Olinto Victor organizar e fazer cumprir os programas de instrução teórica e prática, fixar os horários dos trabalhos dos escoteiros, nomear instrutores, adquirir materiais e promover conferências e torneios tanto na capital quanto nas comissões que se formavam no interior do estado. O artigo 17º do estatuto espelhava o rigor moral de Olinto ao determinar a eliminação imediata de qualquer associado que atentasse contra a honra ou o patriotismo. Já o artigo 18º garantia a laicidade e a neutralidade partidária da A.P.E., proibindo manifestações políticas quando os membros estivessem vestindo os trajes simbólicos da instituição. Sob a firme presidência de Olinto Victor, o escotismo pernambucano floresceu de forma organizada e estritamente vinculada aos ideais da ciência pedagógica.
Enquanto dedicava suas últimas forças ao escotismo e à administração pública, sua vida pessoal também encontrava um porto seguro. Casado desde 25 de abril de 1885 com Dona Maria da Glória Forja de Lacerda, o Dr. Olinto Victor mudou-se definitivamente para o bairro da Várzea em 17 de agosto de 1899. Naquela comunidade de fortes tradições açucareiras e operárias, ele tornou-se a figura mais ilustre, querida e respeitada, atuando como um conselheiro comunitário e um verdadeiro farol intelectual para os moradores. O Dr. Olinto Victor faleceu no dia 4 de julho de 1927, exatamente um dia após completar 65 anos de idade. Seu sepultamento foi acompanhado por uma multidão de ex-alunos da Escola Normal, professores, autoridades e jovens escoteiros da A.P.E. que prestaram a última e emocionada saudação ao seu eterno chefe.
Décadas mais tarde, em um tributo justo e definitivo ao seu legado imortal, o Governo do Estado de Pernambuco escolheu o seu nome para batizar a Escola de Referência em Ensino Médio (EREM) Olinto Victor, localizada justamente no coração do bairro da Várzea, onde ele viveu e plantou suas sementes. Cruzando a história da abolição, do magistério público e da fundação do escotismo oficial no Brasil, a trajetória do Dr. Olinto Victor permanece como um exemplo reluzente de que a educação, o civismo e o amor ao próximo são os verdadeiros pilares na construção de uma sociedade justa, forte e Sempre Alerta.
Bibliografia
FONTES PRIMÁRIAS E DOCUMENTAIS
- ASSOCIAÇÃO PERNAMBUCANA DE ESCOTEIROS. Estatutos Sociais e Ata de Fundação (9 de julho de 1917). Registrado no Livro A-01, sob o nº 119, Protocolo nº 4.240 em 21 de julho de 1917. Certidão emitida pelo 1º Cartório de Registro de Títulos e Documentos e Registro Civil de Pessoas Jurídicas da Comarca de Recife, Pernambuco.
- DIÁRIO OFICIAL DO ESTADO DE PERNAMBUCO. Publicação dos Estatutos da Associação Pernambucana de Escoteiros. Edição de 21 de julho de 1917.
- RODRIGUES, Douglas Alencar. Discurso de Posse na Cadeira nº 59 da Academia Brasileira de Direito do Trabalho (ABDT). Rio de Janeiro. (Texto biográfico e documental utilizado para a reconstrução da trajetória do Patrono da Cadeira, Dr. Antônio Vicente de Andrade Bezerra).
FONTES SECUNDÁRIAS E HISTORIOGRÁFICAS
- BRAGA, Flávia Bruna Ribeiro da Silva. “Ditadura”, Abolição e República: A propaganda da geração positivista em Pernambuco (1875-1889). 2017. 265 f. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Departamento de Pós-Graduação em História, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Recife, 2017.
- EREM OLINTO VICTOR. Dossiê Histórico e Biográfico do Patrono da Instituição. Acervo interno da Coordenação Pedagógica e Gestão Escolar. Recife, Várzea, Pernambuco.
Sobre o Autor
Chefe Gilmar Gonçalves da Silva é historiador, geógrafo, sociólogo e letrólogo. Pesquisador incansável da memória cívica do estado, é o Criador do Museu do Escoteiro Pernambucano e Presidente do Instituto Sempre Alerta. Escoteiro desde os 14 anos de idade.

